Terça-feira, 12 de Abril de 2005

A Casa! (no brasil)

casa.jpg

Levei-te pela mão através do emaranhado de arbustos, silvas e mato!

Por um caminho que já não era caminho!

Seguias-me em silêncio, mas não totalmente descansado!

As silvas prendiam-se no meu vestido leve e por vezes faziam-me pequenos cortes na carne, mas eu seguia indiferente a tudo aquilo!

Embora o dia estivesse muito quente ali quase não entrava o sol!

Tu sentias um certo desconforto, mas não sabias se seria da semi-sombra ou do meu silêncio!

Andamos durante cerca de meia hora, sempre em silêncio!

Lá bem ao fundo começava a ver-se o sol, notava-se o brilho e até se começavam a ouvir os pássaros!

Finalmente uma clareira e ela lá estava!

Imponente como sempre fora, altiva, com aquele ar meio ameaçador meio romântico!

Nem mesmo o passar do tempo, o abandono, a ruína a desgraça ou o caos lhe tiraram a imponência!

Quando se tem, tem-se!

Seja gente ou não!

E a Casa lá estava, tal como me lembrava em criança!

As janelas mantinha quase todos os vidros e as portas muito velhas ainda lá estavam!

Sempre metera respeito, respeito e medo!

Talvez por isso nunca fora vandalizada, o medo impõe respeito!

Por vezes é triste pensar que é assim, mas por outro lado ainda bem que assim é!

Não iria suportar vê-la vandalizada, bestializada, por quem nunca a entendera, por quem não lhe entendera a “alma”!

Sim pois para mim as casa têm “alma” têm estória, segredos, guardam relatos de vidas inteiras...

Entramos, parei no hall, o chão de mármore em losangos pretos e brancos, alguns rachados, a alta escadaria de corrimão de latão que me recordo ser limpo com “solarina” nem sei se ainda existe...

O pé direito enorme, com o gancho de onde pendia um enorme lustre que descia para ser limpo, segundo me lembro, no meu tempo já tinha uma roldana no sótão, mas não sei se terá sido sempre assim!

As marcas dos quadros ainda se notavam nas paredes, o relógio de pé Inglês que tinha a lua de um lado e o Sol do outro, ficava do lado esquerdo ao lado da porta da sala de jantar!

Se fechasse os olhos ainda o conseguia ouvir...

Na sala de jantar consigo "ver" o sideboard, a longa mesa de pés de talha com o tampo de granito polido com uma ponta partida, o espelho de talha dourada, o lustre com alguns cristais coloridos....

As empregadas com fardas negras de setim, "crista" avental e colarinho de renda engomado e luvas brancas, sapato preto raso. Isto nos jantares de festa, de resto as fardas até que tinham cores alegres!

Fui até à escada que dava para a cozinha e zona dos empregados!

O velho fogão a lenha ainda lá estava, já quase não se usava no meu tempo de criança, mas nunca fora deitado fora.

Os grandes lava louças de mármore, os armários de madeira enormes com portas de vidro, madeira, rede.

As enormes bancas corridas. Agora embora a cozinha fosse grande, não me parecia tão grande!

A despensa, que estava sempre cheia de coisas boas....

Dentro da chaminé ainda se via o ferro onde se pendurava o “fumeiro”.

O gato sentado ao lado, sim o gato podia entrar na cozinha!

As portas de madeira que um dia foram brancas abriam-se agora, fora dos gonzos deixando ver uns campos que outrora foram culturas e do lado direito os canis, agora vazios, abandonados!

Mais uma vez, fecho os olhos e ouço o meu riso, os passos, sinto os cheiros...

E estou nisto quando oiço um:

- Aiiii, tás a magoar-me!!!!!

Olho para trás e vejo-te, estás com ar meio dorido meio assustado, esquecera-me completamente de ti!

- Desculpa mas perdi-me completamente no passado! Não te queria aperta a mão com força e muito menos espetar-te as unhas...

- Olha, vamos ao meu antigo quarto!

Mais uma vez nem o deixo responder, agarro nele e subo as escadas a correr!

Chegados ao hall, digo-lhe!

- Sobe, continua a subir o meu quarto era na mansarda!

E fujo-lhe.

Ele aflito grita-me!

- Vai devagar a casa é velha, pode estar podre ainda te magoas, aliás ainda morremos aqui os dois!

Eu entre gargalhadas grito-lhe!

- Esta casa NUNCA ME FARÁ MAL, nunca! E NEM A TI pois estás COMIGO e ELA SABE que EU GOSTO DE TI!

E subimos até eu parar numa porta é o meu quarto:

Ali estava a minha pequena cama, no canto a “senhorinha” de cor verde, odeio verde, o pequeno toucador ficava perto da janela, o espelho era preso na parede, ainda lá está, já quase sem o espelhado.

Paro em frente a ele, fico mais em “negro” do que em "espelho"!

As lágrimas começam teimosamente a querer saltar, aquele espelho é em parte a minha vida!

Ele chega por detrás de mim e para a olhar por de cima da minha cabeça!

A imagem do rosto dele é completamente nítida no espelho velho!

Ele diz:

- Anda cá, não vês que o espelho é maior do que aquilo que a tua vista alcança...

E com ternura pega em mim e fazemos amor no meio de todo aquele pó que até aqui era o meu pó, o meu passado e a partir de agora passa a ser o nosso pó o nosso futuro o nosso destino!


E mais uma vez a casa acolheu-me, abraçou-me e amou a quem eu gosto!









Cicuta Doce

publicado por Cicuta às 21:34
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11 comentários:
De Pale Gold Snake a 18 de Abril de 2005 às 12:14
CICUTA DOCE: Curioso não sei, mas se quase tudo existe ou existiu tanto melhor... já dizia Cristovão Colombo: "A realidade é sempre mais criativa que a imaginação!" Ou algo do género! Recordar é viver, tb já dizia o outro!... Beijo!...


De cicutadoce a 16 de Abril de 2005 às 18:14
Dogmazul obrigada pela visita e pelo convite, só não irei se não puder. Beijo doce


De cicutadoce a 16 de Abril de 2005 às 18:12
Borboleta Assanhada já fui e só mesmo tu!!!!!! Beijo venenoso. Mas tu estás imune! lol


De cicutadoce a 16 de Abril de 2005 às 18:11
Pale gold Snake o mais curioso é que quase tudo o que está escrito existe ou existiu...


De cicutadoce a 16 de Abril de 2005 às 18:09
Barmaid para partilhar não é preciso ter "assinatura", basta "amar" o que se tem no momento. Beijo solto


De cicutadoce a 16 de Abril de 2005 às 18:08
Infiel por vezes não é preciso falar no sexo, ele está sempre presente em qualquer gesto, letra ou pensamento da Cicuta. Beijo doce


De dogmazul a 14 de Abril de 2005 às 14:41
acho q me estou a aficionar a este doce veneno...continua!!
Fica desde já um convite a ti e atodos os leitores do teu blog a assistirem ao nosso Concerto no dia 21 de Abril (Quinta-Feira), Pelas 23 horas, no Santiago Alquimista (Perto do Castelo de São Jorge), vai ser a apresentação em Lisboa do nosso CD, Kilometro 0. e já agora que tal um saltinho e um comentário no nosso Blog?
http://dixitmusica.blogspot.com


De BorboletaAssanhada a 13 de Abril de 2005 às 15:30
Cicuta...não te zangues, mas vai lá ao meu cantinho, faxavor... Bj


De Pale Gold Snake a 13 de Abril de 2005 às 13:32
Este post fez-me lembrar Eça de Queiroz, pelo detalhe das descrições e pelo modo como me fez visualizar todo o cenário quase na perfeição!... Muito bem escrito e dps o inevitável... amor... sem amor pelas pessoas ou pelas coisas não se consegue escrever, pelo menos com alma & coração!... Beijo Romântico!


De barmaid a 13 de Abril de 2005 às 09:11
Adorei...Principalmente quando escreves acerca do sexo...heheh...Não tenho com quem partilhar sensações tão intensas mas também por opção minha!

Beijokinhas,
fica bem


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